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Espaço do Leitor : (Muito) Mais que um título.



O que pode significar um título individual quando se joga modalidades coletivas? Para Lionel Messi, mais um recorde. Para Lebron James, o exorcismo do fantasma do “amarelão”. Para Neymar (quando e se acontecer), a afirmação de um craque de futebol que superou toda a desconfiança do seu próprio país. 



E para a Alexandra Nascimento?

Mas, Alexandra “Quem”?

Pois é. A brasileira Alexandra Nascimento foi eleita, na última terça feira (08), a melhor jogadora de handebol de 2012, isso enquanto todos discutiam sobre a tremenda injustiça de Neymar ter perdido a eleição de gol mais bonito do ano. Ela superou, na eleição final, duas concorrentes nórdicas, oriundas de países onde o handebol é muito popular.

A atleta começou a se destacar quando ajudou a conduzir a seleção brasileira à inédita 5ª colocação no mundial da modalidade, disputada no Brasil em 2011. No ano seguinte, ela foi a artilheira da seleção na disputa dos Jogos Olímpicos e o Brasil terminou, também, na 5ª colocação após ser eliminada pela Noruega (campeã do torneio) nas quartas de final. Atualmente ela joga por um time da Áustria e disse estar surpresa com a eleição.

"Ainda não acredito. Mesmo estando concorrendo, foi uma surpresa maravilhosa. Agradeço a todos que me apoiaram e votaram em mim, pois sem eles eu não conseguiria esse prêmio. O meu recado para todas as pessoas que têm um sonho e que, talvez, não tenham dinheiro nem ajuda, que não desistam, pois se você tem fé, humildade e acredita no seu trabalho, tudo é possível. Eu também passei por muita coisa e hoje faço uma análise. Se Deus me perguntasse se eu faria tudo de novo, sem dúvida, rapidamente eu diria que sim", disse a brasileira ao canal esportivo ESPN.

Mas, voltando à pergunta inicial: O que isso pode significar?

São várias as respostas possíveis, entre elas: “O Brasil não incentiva nada senão o futebol”. “Ela superou muitas dificuldades, nadou contra a corrente e ninguém sequer sabia da conquista”. “Enquanto o Neymar fica dançando em clipe, ela treina e ganha o título”. Guardadas às devidas proporções de conhecimento técnico sobre o assunto e calor do momento, essas respostas são todas corretas. Mas acho que cabe uma reflexão diferente.

O Brasil é o país do futebol e a mídia dá uma ênfase tremenda à modalidade. Nada mais justo, se considerarmos a proporção dos praticantes de cada modalidade no país. Mas então outras modalidades nunca terão chance de aparecer na TV? Isso depende se você é do “Team eu-sou-a-vítima” ou do “Team vamos-mudar-isso”. Vamos exemplificar com dois casos que são semelhantes em alguns pontos, mas não no produto final.

Os casos em questão são: Superliga de Voleibol e Liga Futsal. As duas modalidades tem um nível elevadíssimo nos campeonatos nacionais, tiveram ótimos resultados nas últimas competições internacionais, possuem um bom número de praticantes no Brasil, possuem treinadores de nível internacional, atraem jogadores internacionais (no futsal, nem tanto). Mas porque, então, há tanta diferença na audiência dos dois campeonatos?

A resposta é simples: GESTÃO. Enquanto o Voleibol possui gestores realmente capacitados para elevar o nome da modalidade, o futsal insiste no amadorismo apesar das recentes mudanças. E essa diferença na gestão resulta em ações simples, principalmente de exposição da marca, que acaba gerando todo esse abismo entre os campeonatos de voleibol e futsal no Brasil. Entre elas, podemos citar:

Utilização dos atletas como “embaixadores” do campeonato:

Pense rápido no nome de 5 jogadores de voleibol. Fácil. Agora de futsal. Pois é. Se você não é um aficionado ou não acompanha com certa frequencia a Liga Futsal, não conseguirá responder com tanta facilidade. Criar ídolos é uma forma mais do que eficaz de estabelecer uma cultura de massa. Isso não só para o esporte.

Adaptação do calendário ao “hiato” do futebol, fazendo com que haja até 10 jogos semanais na TV por assinatura:

Iniciar a principal competição nacional no final de novembro, quando o futebol está encerrando suas atividades no Brasil não é por acaso. Dessa forma consegue-se garantir um bom espaço nos canais esportivos e não uma mera “segunda-feira as 19:15”, como é conhecido o espaço do futsal na televisão brasileira. Em dezembro, por exemplo, houve semanas em que foi possível assistir dois jogos de voleibol por dia. Como foi dito: nada é por acaso.

Valorização das marcas dos times:

Ainda que nesse caso haja certa semelhança, pois no futsal temos um “polo” na região sul do país, a efetividade dessas marcas não atinge grande alcance. Enquanto no futsal temos Carlos Barbosa (RS), Jaraguá (SC) e Orlândia (SP) como grandes clubes, no voleibol temos SESI (SP), Cruzeiro (MG) e RJX (RJ). A diferença geográfica, nesse caso, é determinante para que haja ou não investimento. Basta ver onde Eike Baptista investiu e não é necessário dizer mais nada!

Isso tudo não quer dizer que “Vôlei é legal e futsal é chato”. Mas sim que um soube aproveitar muito bem as oportunidades que têm e o outro não. O segredo é saber trabalhar com seus potenciais e ser grande ao seu modo, sem se lamentar por ser menor que o outro.

Somos, felizmente ou não, o país do futebol. Tentar mudar isso é impossível. Continuar reclamando é comodismo. Uma coisa é deixar que atletas como Joaquim Cruz, Aurélio Miguel, Nelson Prudêncio, Carlos Honorato, Yane Marques, entre outros, caia no ostracismo. Isso é um “problema” crônico do brasileiro que não é exclusividade do esporte. Outra coisa é reclamar por falta de oportunidade. Hoje, sabemos que o governo possibilita o investimento maciço no esporte de alto rendimento e embora a política pública do esporte não esteja perfeita, não é lamentando que conseguiremos mudar esse quadro.

Que o feito da Alexandra Nascimento não seja esquecido. Assim como os de Sarah Menezes, Thiago Pereira, César Cielo, Alan Fonteles, Artur Zaneti. Só para lembrar os últimos. E que eles sejam de exemplos a serem seguidos e que se tornem nomes de respeito no país, e não só utilizados para protestos banais.


"Graduado em Esporte pela Escola de Educação Física da Universidade de São Paulo e especialista em treinamento de futebol e futsal pela Universidade Gama Filho. Professor de basquetebol da Secretaria de Esportes de Cosmópolis e Preparador Físico da Associação Atlética Cosmópolis".

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